O que pretendo contar aqui não tem nada a ver com o objeto em si, ou seja, a pessoa com a qual transei. Ele é lindo, inteligente e ótimo mas acho que tudo isso aconteceu porque nem eu nem ele estávamos exatamente inspirados.
Estava eu, linda e maravilhosa como todas as outras mulheres, em uma festa de formatura. Comemoração daquele amigo que você adora mas não tem nada a ver com a sua vida a não ser naqueles doces 10 anos de amizade. Ok. Turma de engenharia. Ok. 2002. Ok. Resultado: ninguém com o qual você se identifique. No sex há longos 4 meses. Encontro ocasional com aquele ex ficante de um ano atrás. Mais perfeito impossível.
Vocês conversam civilizadamente. Ele já te perdoou por você ser uma mulher estranha que nunca quis namorá-lo, apesar dele ter muito amor para dar. Dançam muito. Bebem sempre. Dançam estranhamente. Bebem em excesso. Pedem para o táxi ir à casa dele.
Lindo. Nenhuma roupa. Homem e mulher que se gostam. Casa dele. Nenhuma preocupação com a conta do motel. Papai-mamãe na sala, de quatro no quarto, em pé no chuveiro, boquete na cozinha, de lado no corredor, em cima na copa, de cabeça para baixo no lustre. Opa! Nem tanto assim que não sou uma ginasta olímpica!
Como todo sexo bom, e assim como tudo na vida, há um momento em que é necessário parar. Descansar. Fumar um cigarro. Mas, incrivelmente, ele não pára. Você, que ainda sente culpa pelo que fez com ele, resolve fazer mais um boquete amigo, daqueles que só com muito amor e disposição se faz. Capricha. Ainda assim ele não pára. Ele não sossega. Você adormece como um anjo e ele a acorda como se não tivesse acontecido nada e, surpreendentemente, quer mais e mais.
Aí então você entende tudo. Ele não queria mais sexo. Queria era sugar qualquer resto de sopro que ainda existia em você. Queria era vingança pelo que aconteceu há um longo ano atrás.
Então me rebelei. Cansei de ser a mulher culpada para me tornar a mulher indefesa. Comecei a gritar e dizer que eu não aguentava mais. Chega. E, ainda assim, ele não parou de me tocar. Levantei da cama e comecei a vestir minha roupa, puta (ou seja, com raiva). Mas então me lembrei que eu estava com um corpete complexo e excessivamente caro que somente minha mãe ou algumas amigas conseguiam vestir em mim. Respirei fundo porque sabia que não seria fácil voltar a estar vestida como qualquer moça de família.
Pedi a ele que me ajudasse. Ele, com ódio, respondeu um simples: "se vira!". Ali pude perceber o ápice de sua resposta a todo o desprezo que tive em relação a ele em longuíssimos 12 meses atrás! Estava frita, fudida, ferrada. Na casa do inimigo e nua!
Fiquei louca e comecei a gritar ainda mais. Abri seu armário e peguei a primeira camisa que vi e fiz uma composição artística de Hering branca com saia - preta - longa - com fenda. Mas quando me olhei no espelho percebi que meu modelito será certamente um sucesso nas passarelas daqui a uns 10 anos (quando não tiverem nada mais para inventar) mas que 9 horas da manhã era cedo demais para querer bancar a vanguardista fashion.
Tirei a camisa com mais raiva ainda e ele me olhava, nu, com aquele olhar atônito e arrependido por ter mexido com alguém bem mais louco que ele. E então o armário finalmente me ofereceu a luz: um sobretudo preto maravilhoso que caia perfeitamente com minha saia. Vale lembrar que minha preocupação não passava apenas pela elegância mas, principalmente, em como seria vista ao andar pelas ruas com cara de custar míseros R$4,72.
Saí da casa dele batendo a porta e amaldiçoando qualquer pessoa que viesse a tocá-lo novamente. Fechei a porta. Fechei o portão. Restava apenas um para que eu ultrapassasse a casa do homem para chegar à liberdade das ruas. No entanto, o segundo portão estava fechado. E não havia botões próximos. Estava eu, em pleno domingo, às 09:30 da manhã, presa entre dois portões de um prédio que eu queria distância. Resolvi apertar o número do apartamento do cara para que ele abrisse mas eu não fazia idéia nem de qual andar ele morava. Resolvi ligar. Não tinha mais o telefone.
Comecei a pensar em soluções. Olhei para cima e vi que eu podia pular a grade. E daí que estava de salto longo e fino? E daí que tinha arame farpado e cerca elétrica em cima das grades? O que importava era que queria sair dali! Mas, quando já ia executar meu plano genial, minha cabeça resolveu voltar a funcionar depois de umas 5 horas em inatividade e decidi não colocar a idéia em prática.
De repente, avisto uma mão. Doce. Delicada. Uma mão de mulher. Aliás, de uma senhora. De uma singela dama que aguava as plantinhas de seu apartamento. Segurei a beira da varanda com uma força que veio do desespero e do útero e disse um educado ‘bom dia’. A mulher gritou e quase jogou um vaso em cima de mim mas, graças a Deus, percebeu que eu era amistosa. Perguntou o que eu queria e expliquei minha situação. Aliás, parte dela. Preferi me ater ao fato de que precisava sair dali e que não sabia como. Ela abriu mas, além disso, resolveu me mostrar um botão gigantesco, vermelho, que só faltava piscar, ao lado do portão. Quis chorar mas me contive e apenas agradeci. Saí de lá, horrorosa, bêbada e envergonhada e fui direto para minha casa que ficava a apenas 3 quarteirões.
Hoje, toda vez que olho para o casaco do cara e o encontro por acaso na rua, me pergunto: devolvo ou não?