26
de
outubro
Blasé. E você?
…e então ela acordou. Abriu os olhos e observou alguns detalhes do seu quarto. As prateleiras cobertas de velharias supérfluas, dois livros que começou a ler mas não teve coragem de terminar, fotos de pessoas que passaram ou que ainda vão passar, vidros de perfume velhos e dezenas de maços de cigarro vazios.
Seguiu normalmente sua rotina. Como sempre, saiu apressada para o trabalho sem sequer tomar um copo de leite ou suco. Mas havia algo diferente naquele cotidiano banal ainda que não soubesse precisar o quê. Olhou para o relógio. Estava 12 minutos atrasada. Esperava seu ônibus com um certa ansiedade mas, especialmente nesse dia, não sentiu nada ao ver todos os números e cores dos outros coletivos.
Chegou ao trabalho. Cumprimentou as pessoas. Estava estranha. Não sentia tristeza, nervosismo ou sequer cansaço. Apenas estava lá. Cumpriu suas funções. Voltou para casa.
Resolveu passar em uma loja de conveniências para comprar alguma bobagem que pudesse deixá-la com água na boca e, pelo menos, um pouco mais animada. No entanto, para sua surpresa, nenhuma embalagem de guloseimas conseguia seduzi-la.
Voltou para casa e ligou a televisão. Aí sim se surpreendeu. Nenhum comercial feito para emocionar, surtia efeito. Isso a deixou transtornada. Ela trabalhava com isso. Sabia que não há cachorro, criança ou pessoa com câncer que não emocione.
No dia seguinte foi ao médico. Ele afirmou que a doença foi descoberta por um cara chamado Weber. Ela lia como se fosse “ueber” ao invés de “veber”, mas isso não fazia a menor diferença. O que importava é que ela não se sentia estimulada por nenhuma imagem. Até um cego se encantaria ao imaginar paisagens e cores, mas ela não. Não mais.
Continua…


