QUASE MENTIRA

Tudo aqui é quase uma mentira. Quase. Entre e fique a vontade para ler e dizer.

26

de
outubro

Blasé. E você?

…e então ela acordou. Abriu os olhos e observou alguns detalhes do seu quarto. As prateleiras cobertas de velharias supérfluas, dois livros que começou a ler mas não teve coragem de terminar, fotos de pessoas que passaram ou que ainda vão passar, vidros de perfume velhos e dezenas de maços de cigarro vazios.

Seguiu normalmente sua rotina. Como sempre, saiu apressada para o trabalho sem sequer tomar um copo de leite ou suco. Mas havia algo diferente naquele cotidiano banal ainda que não soubesse precisar o quê. Olhou para o relógio. Estava 12 minutos atrasada. Esperava seu ônibus com um certa ansiedade mas, especialmente nesse dia, não sentiu nada ao ver todos os números e cores dos outros coletivos.

Chegou ao trabalho. Cumprimentou as pessoas. Estava estranha. Não sentia tristeza, nervosismo ou sequer cansaço. Apenas estava lá. Cumpriu suas funções. Voltou para casa.

Resolveu passar em uma loja de conveniências para comprar alguma bobagem que pudesse deixá-la com água na boca e, pelo menos, um pouco mais animada. No entanto, para sua surpresa, nenhuma embalagem de guloseimas conseguia seduzi-la.

Voltou para casa e ligou a televisão. Aí sim se surpreendeu. Nenhum comercial feito para emocionar, surtia efeito. Isso a deixou transtornada. Ela trabalhava com isso. Sabia que não há cachorro, criança ou pessoa com câncer que não emocione.

No dia seguinte foi ao médico. Ele afirmou que a doença foi descoberta por um cara chamado  Weber. Ela lia como se fosse “ueber” ao invés de “veber”, mas isso não fazia a menor diferença. O que importava é que ela não se sentia estimulada por nenhuma imagem. Até um cego se encantaria ao imaginar paisagens e cores, mas ela não. Não mais.

Continua…

23

de
outubro

Celular: um monstro disfarçado de telefone


Tudo corre normalmente. Você continua imersa em inúmeras histórias amorosas que transitam do caos à mediocridade em questão de dois finais de semana. Transa com X, beija Y e se apaixona por Z. No entanto, Z, seu novo grande amor, resolve te ligar incessantemente até que Y (aquele que te chama de Simone quando esquece seu nome) torna-se o membro mais atraente da lista. Normal. Quase banal. Até que, na semana seguinte, X transa como se você fosse uma cadela (como sempre faz e que não deixa de ser ótimo) mas, surpreendentemente, te dá um beijo no rosto que te arrepia como em nenhuma das trepadas anteriores. Normalíssimo. Você se apaixona, então, por X. Finalmente, você é apresentada a W e, esse sim, é o homem da sua vida já que vocês mal se conhecem. E nesse vai e vem de pessoas, a vida segue seu curso normal, seguro e superficial de maneira que nada pode te ferir.

Até que, inesperadamente, o celular, que finge ser apenas um aparelho de comunicação, se transforma em um eficiente instrumento de desestabilização e uma poderosa máquina do tempo. Seu ex, aquele que mesmo após 4 anos (uma copa!) não sai da sua cabeça e um dos responsáveis por você não querer se envolver com ninguém, resolve te convidar para sair. Bom, isso já não é tão normal. Mas, apesar disso, o convite é aceito e você se arruma de maneira que fique imperceptível qualquer produção para o encontro. Calça jeans no lugar de uma mini-saia, batom claro, pouco rímel e nenhum blush. Você acaba não resistindo e coloca aquela pulseira vermelha, mas e daí? Ela nem vai te deixar tão arrumada assim.

Quando chega ao café, ele já está à sua espera com um copo de whisky e outro de cerveja:

- Nossa. Você está indeciso?
- Não. Nunca estive tão decidido.
- (Glup)
- Realmente gosto de misturar as duas bebidas.

O encontro é excelente. Você rememora aqueles gestos que você adora, a noite é engraçada, leve e ele passa 3 horas dizendo como errou ao te deixar e que ninguém se equipara a você. Lindo. Você volta para casa quase feliz já que inteiramente é impossível pois ele é o maior trauma da sua vida.

Finalmente você vai dormir e, ao escovar os dentes, se olha no espelho e tem um insight tal qual o de Jude Law em Closer ao ir à ópera com a bela Julia Roberts. Não há maquiagem, inteligência, elasticidade física (ou psíquica), bom humor, beleza ou caráter que te deixe mais atraente do que o filtro da carência. De repente você se lembra que seu ex acabou de sair de uma relação onde ele foi chutado, que você foi a única que o amou de verdade e que, no final das contas, aquela enorme lista de qualidades que ele descreveu estavam potencializadas, aos olhos dele, pela sua carência. Você vai dormir com ódio pensando se deve retomar a história com W, X, Y e Z mas nunca se esquecendo de V que você conheceu no ponto de ônibus e de U, aquela mulher que ainda te quer (sim, você teve um período de lesbianismo após o traumático término).

Portanto, quando seu celular tocar, muito cuidado! Ele pode te tirar de uma roda de superficialidades confortáveis para te jogar em um poço de densidade destrutiva. Nunca se esqueça que essa invenção maravilhosa pode ser um lobo em pele de cordeiro.

22

de
outubro

De madrugada

O que eu realmente queria nesse momento seria o de poder criar uma realidade distinta da que percebo agora. Tenho plena consciência de que o que nos rodeia é apenas o que nosso olhar escolheu ou conseguiu captar. Nosso mundo consiste simplesmente em um ponto de vista. No entanto, ainda que eu tente através do intelecto perceber meu espaço de forma diferenciada, não tenho tido sucesso. Em vão, procuro criar um jogo entre minha mente e meu coração para que pelo menos um deles possa ser enganado. Mas subir em cadeiras, deitar no chão, ficar de cabeça para baixo não tem servido para que eu veja de outra forma.

É absurda a dependência que sentimos do amor. Infelizmente, profissão, família ou amigos não suprem essa carência. Tem que ser amor de namorado mesmo. Aquela sensação de que não é preciso mais nada além daqueles olhos para que tudo esteja bem. Aquela vontade, à principio interminável, de encontrar aqueles braços. Aquela falta que não passa mesmo quando estamos perto. Aquele alívio quando estamos tristes e então percebemos que não estamos sozinhos. Aquela perda de sono repentina só para poder observar o outro dormir ao seu lado. Aquele tesão que não pode esperar nem mesmo a chegada até um quarto. Aquela angústia por não conseguir encontrar um presente à altura do que estamos querendo dizer. Aquela mania incessante de ficar lembrando como se deu o seu encontro com ele. Aquela fé de que tudo na vida tem um motivo justo. Aqueles delírios deliciosos tentando imaginar ou construir o futuro. Aquela alegria ao saber que ele obteve uma conquista e que você esteve por perto para ajudar.

Queria não sentir tanta falta disso tudo. Poder apagar da minha cabeça e peito qualquer necessidade ou lembrança referentes ao amor. Se eu pudesse canalizar todo esse sentimento para minhas criações, seria perfeito. Dessa forma, poderia transar com quem quer que fosse pois não estaria em busca de afeto, apenas de prazer. Não teria que contar com a ínfima possibilidade de sentir aquele gelado absurdo de saudade. Ter que conviver comigo mesma, cheia de mágoa e desencanto, não aconteceria novamente. Não iria mais querer morrer para poder descansar desse tipo de desespero.

Mas a cada dia que passa, a cada nova história que recuso, percebo que esse tipo de amor não pode ser negado assim como não podemos deixar de comer ou dormir. Já tentei desafiar meu corpo várias vezes para tentar vencer essas necessidades básicas. Mas é inútil. Chega uma hora em que você deita e dorme mesmo que não queira ou come até grama para se satisfazer. É assim que estou. Com sono e fome mas relutando para não ceder. O triste é quando chegamos em um ponto limite: acabamos dormindo em um chão frio ou comendo lixo. Tudo isso só para atender aos gritos do nosso corpo que se nega a ouvir um ‘não’ quando o que ele quer é mais e mais.

22

de
outubro

Quase

Mas o que, afinal, caracteriza uma “quase mentira”? Muitos devem estar pensando naquela mentirinha que contamos ao namorado para fazermos aquele programa light e ingênuo com as amigas, mas que ele não aceita por pura maldade. Tem também aqueles pequenos, minúsculos, microscópicos detalhes que omitimos das inúmeras besteiras que fazemos só para não ouvir um sermão que traz uma dor de cabeça ainda pior do que aquela dúzia de taças de champanhe. Por fim, há a chamada mentira branca (ainda que ache a cor questionável) que eu denomino mentira moral. Essa vem de uma habilidade extremamente humana onde até o ato de esconder pode se tornar algo admirável por ser de boa intenção, por, supostamente, fazer bem a alguém. No entanto, para mim, a quase mentira não entra em nenhum desses casos. Por ser quase, não chega a ser, portanto, não é mentira. Apenas chega perto, assim como mão no peito, pinto e bunda em relação a sexo: encosta na porta mas não chega a entrar. Buscar a quase mentira é tentar encontrar aquelas coisas meio escondidas, estranhas e, às vezes, até perfeitas que fazem com que a gente questione se o que vemos é real. Não pretendo flertar com mentiras, mas sim, com as essências que, de tão verdadeiras, parecem ilusões. Eis a grande dificuldade: identificá-las.

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